quarta-feira, 10 de março de 2010

Geodiversidade e Geoconservação

Por Fernando César Manosso e Marcos Antônio Leite do Nascimento



É mais que notória a eminente preocupação da sociedade atual com as questões ambientais e as reais implicações que nossa interferência sobre as condições físicas, biológicas e químicas do Planeta poderão proporcionar.

Esse assunto está cotidianamente na mídia e divide-se entre sérios casos de poluição, erosão, desmatamento, etc, reflexos de um desenvolvimento que precisa atender as necessidades da sociedade moderna.

De forma a amenizar os efeitos antrópicos sobre a Terra, conferências internacionais sobre meio ambiente são realizadas a pelo menos três décadas e a cada dia aparecem práticas ecologicamente corretas em todos os setores econômicos e em todos os níveis da sociedade.

Desse modo, foram surgindo algumas estratégias diretas de conservação da natureza, sobretudo com um apelo bio ou ecológico, como é o caso das centenas de áreas protegidas distribuídas pelos mais variados biomas do Planeta e em diversos países, com objetivo de resguardar significativos exemplares da vida e de paisagens naturais para o futuro.

Como parte dessa estratégia aparece em cena também, sob a esfera pública, instrumentos legais de incentivo à conservação da natureza e de punição ao efetivo poluidor ou àquele que altere as condições biogeoquímicas do meio.

Meio esse que é constituído por uma estrutura física bastante organizada, chamado de meio abiótico e que possui a função de dar suporte ao desenvolvimento de outra estrutura muito complexa também, que é a vida, ou elementos bióticos.

Portanto, o meio é a junção inseparável dos elementos abióticos como clima, rochas, solos e água e os elementos bióticos, constituído pelos animais, vegetais e outras formas de vida.

No entanto, quando se fala em conservação ou preservação da natureza, percebe-se uma preocupação maior com os elementos biológicos. Inclusive, as unidades de proteção ou conservação da natureza supracitadas, em sua maioria estão situadas em áreas ditas prioritárias para conservação da biodiversidade.

Biodiversidade é a diversidade da vida, que em alguns biomas são mais elevadas e em outros mais baixas, mas junto à essa biodiversidade existe uma geodiversidade.

Podemos dizer que a vida no planeta só passou a ter uma maior diversidade a partir do momento em que a geodiversidade passou a se intensificar, principalmente nas Eras Paleozóica e Mesozóica, pois com a atmosfera oferecendo condições climáticas diversas sobre a superfície, os oceanos sendo formados e redistribuídos e os continentes se reestruturando formando depressões, vales, cadeias de montanhas, rios, etc, a vida foi se adaptando, se diversificando ao longo das terras e mares.

Parte dessa biodiversidade recebeu o título de patrimônio da humanidade devido a sua importância, assim como algumas expressões culturais ou construções históricas que representam um importante registro da história social, econômica ou cultural da sociedade.

Mas segundo o conhecimento gerado pelas geociências como Geologia, Paleontologia, Geomorfologia, Petrologia, Mineralogia, Hidrologia, etc, existe outro patrimônio, baseado na geodiversidade, que são áreas ou locais de suma importância para entender história geológica do Planeta Terra.

Esses locais, com presença de formações rochosas específicas, processos geológicos peculiares e representativos ou ocorrência única de fósseis, por exemplo, configuram um conjunto de registros que nos ajuda a compreender o passado da Terra e por isso, precisam ser conservados e até mesmo melhor aproveitados sob seus devidos valores científicos-didáticos, estético-paisagístico, cultural, educativo ou turístico.

Para isso é necessário uma estratégia de geoconservação, inventariando e classificando as áreas prioritárias, oferecendo condições efetivas de uso adequado e de sua proteção.

Algumas iniciativas já estão acontecendo em nível mundial, inclusive, além da conservação da geodiversidade, o conhecimento científico sobre ela tem sido aproveitado para o turismo científico, educativo e de lazer.

A UNESCO criou um programa de Geoparques, que abrange um conjunto de locais com interesse geocientífico e esses são conservados e oferecidos à população como atrativos e possibilidade extra de geração de renda na região.

Alguns estados, como o Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Paulo, dentre outros começam a oferecer a informação de geociências em locais onde já existe a visitação turística e o principal atrativo está pautado na geodiversidade, como a paisagem, formas de relevo, rochas, etc.

Existem várias Unidades de Conservação no Brasil muito visitadas pelos turistas e estudantes, onde o principal atrativo é a beleza estética, que está associada diretamente a condições geológicas do local. Exemplo disso são as Cataratas do Iguaçu, as Chapadas, a Serra do Mar, Serra Geral e Aparados da Serra, dentre outras.

É necessário que os gestores públicos e aqueles de áreas protegidas percebam a necessidade da geoconservação e incentive a sua inventariação, classificação e uso educativo, científico e turístico dessas áreas.

(Fernando Manosso é Geógrafo, Mestre em Análise Ambiental e Doutor em Geografia pela Universidade de Maringá - PR)

2 comentários:

  1. Sheyder, ainda sou doutorando, falta um pouco para o título de Dr. rs....Obrigado pela divulgação do mateial.
    Abraço
    (Fernando Manosso)

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