domingo, 2 de maio de 2010

Por que Divulgar a Geologia

(por Katia Leite Manssur - DRM-RJ)

Apesar de ser clara a relação entre a biota e o sistema físico da Terra, em geral cada um deles é tratado de forma separada e com pesos distintos quando da gestão dos recursos naturais. Gordon e Leys (2001), baseados nos resultados de mais de 50 anos de trabalhos de inventário, divulgação geológica e geoconservação na Escócia, afirmaram que três grandes linhas devem ser unificadas para o sucesso de um programa de conservação do patrimônio natural: amplo conhecimento e aceitação da relação entre os sistemas físicos e biológicos da Terra; promoção da gestão sustentável do meio ambiente baseado na aplicação do entendimento público e do seu envolvimento nas questões relacionadas ao patrimônio natural.

Fica claro, portanto, que não se trata de discutir (ou provar) que um tipo de sistema é mais importante do que o outro e sim que ambos estão interligados, numa visão holística. O simples fato de que a geodiversidade é o substrato onde a vida se desenvolve e o homem constrói é motivo suficiente para ser tratada com a mesma importância que a biodiversidade.

Com base nestes conceitos é que se torna necessária a construção de uma agenda para proteção do patrimônio natural baseada na divulgação dos seus aspectos e não somente na fauna e flora e nas belas geoformas que a natureza produz. Assim, a importância científica e didática do patrimônio geológico deve ser tratada em igualdade de condições com sua beleza cênica, relacionada, em geral com seus atributos turísticos, que, apesar de importantes, não são os únicos a conferir valor ao monumento. A funçao do meio geológico como suporte para os sistemas ecológicos deve ser divulgada e esclarecida para o público em geral.

Brilha (2005) apresenta a execução das seguintes etapas como requisitos básicos para se promover a Geoconservação de uma área:

a) inventário: levantamento da área a ser inventariada em função dos critérios de avaliação/ descrição e escala de trabalho (Lima, 2008)

b)quantificação: busca demonstrar a relevância do patrimônio para dar suporte às ações de geoconservação, com o mínimo de critérios subjetivos. Em geral os métodos de avaliação quantitativa dos geossítios utilizam critérios de valor intrínseco, potencial de uso e necessidade de proteção para valoração do patrimônio geológico.

c) classificação: refere-se ao enquadramento dos geossítios de interesse na legislação de proteção. No Brasil não existe uma figura específica para proteção do patrimônio geológico dentro da Lei do SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação - Lei Federal 9985, de 18 de julho de 2000, que regula as áreas protegidas. Os sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontoógico, ecológico e científico, estão protegidos pela Constituição Federal (artigo 216) como patrimônio cultural brasileiro. Também cita em seu artigo 24, a categoria de patrimônio do tipo turítico como um bem e direito a ser protegido.

d) conservação: pressupõe a manutenção a integridade do geossítio, podendo incluir restrições de uso e até implantação de barreiras físicas para impedir a aproximação do visitante. Vale ressaltar que a retirada de amostras pode danificar o afloramento, suprindo algumas feições/estruturas raras ou didáticas que foram descritas, por exemplo, em publicações de referência.

e) valorização e divulgação: valorização significa o conjunto de ações executadas para demonstrar a importância do geossítio e, para este conceito, associa o exemplo dos painéis interpretativos, folhetos, mídia eletrônica, entre outros. A compreensão da populaçãodos fenômenos geológicos é essencial para a promoção da geoconservação, porém a divulgação da interpretação à sociedade deve ser feita desde que ela não leve perigo á integridade do local

f) monitoramento: acompanhamento sistemático da situação dos geossítios para verificação do possível alcance das ações antrópicas sobre eles. Vale ressaltar que algumas alterações podem ser naturais e a capacidade do local em receber visitantes deve ser avaliada.

(trecho da revista da USP; v.5p. 63-74, 2009)

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