quinta-feira, 20 de maio de 2010

Produtores Rurais Temem Criação de Geoparque

(Esta reportagem é um exemplo do quanto o Brasil ainda é carente em estudos sobre o trinômio. Mais uma vez eu reforço: Geoparques não tem vinculação com desapropriação de terras! Geoparques incentivam a permanencia das comunidades locais em sua área de abrangência.)


Proprietários e produtores rurais dos Campos Gerais já estão se mobilizando para conter o projeto de criação de um Geoparque na região. Na última terça-feira, a Federação de Agricultura do Estado Paraná (Faep) coordenou, por solicitação do núcleo de Sindicatos dos Campos Gerais, o encontro entre produtores, entidades classistas, técnicos da Universidade Estadual de Ponta Grossa, da Mineropar e um representante da Unesco no Brasil.

Para os produtores, o projeto de Geoparques é bom, mas para ser implantado em regiões inóspitas, e não nos Campos Gerais. “A região já tem uma cadeia produtiva definida”, justifica a engenheira agrônoma, Sandra Queiroz, que no encontro representou a Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa (ACIPG). Para ela, os Campos Gerais já contam com um referencial, mas na tecnologia de ponta nas produções pecuária e agrícola. “Não cabe uma reestruturação com outro foco, o turismo por exemplo”, avalia.

Os proprietários que contam com terras em regiões que podem fazer parte de um possível Geoparque temem que haja desapropriação, nos mesmos moldes das Unidades de Conservação. “Entendo a resistência destes produtores, mas ela ocorre devido a desinformação”, explica o geólogo e professor do Departamento de Geociências da UEPG, Gilson Burigo Guimarães, que faz parte do grupo de estudos que está propondo, através de projeto, a criação do Geoparque nos Campos Gerais. Conforme o pesquisador, as Unidades de Conservação diferem dos Geoparques. “Este processo não envolve desapropriação”, garante.

Mesmo com a garantia dos pesquisadores, os produtores – através de pesquisas realizadas na Internet – alegam a desapropriação como negativa para a criação do Geoparque. Durante o encontro na Faep, a engenheira agrônoma, Daniele Sabatke, representando a Sociedade Rural dos Campos Gerais, discursou “comprovando” a necessidade de desapropriação de áreas privadas para a efetivação do projeto. “Busquei em outros Geoparques e fiz a comprovação”, explica Daniele. Conforme Gilson, a pesquisa foi realizada em Geoparques criados em outros países, portanto, com legislação diferente da aplicada no Brasil. “Aqui o único Geoparque criado, e que pode servir de exemplo, é o do Araripe”, destaca, lembrando que lá não houve a desapropriação.

O geólogo explica que a confusão se deve às Unidades de Conservação. “No Araripe acontece que muitas das áreas do Geoparque estão localizadas dentro destas Unidades”, destaca, lembrando que o mesmo aconteceria nos Campos Gerais, citando áreas dos Parques Estaduais de Vila Velha e Guartelá.

Ainda durante a reunião da Faep, o representante da Unesco, o engenheiro florestal Celso Shenkel, explicou sobre o processo legal para a criação de Geoparques no mundo. Conforme os produtores rurais, no caso dos Campos Gerais, a solicitação para estudos que viabilizassem um Geoparque dessa natureza deveria vir através da solicitação do Itamaraty, que por sua vez deveria receber a inscrição através da comunidade moradora e trabalhadora da região. “Conversamos com produtores e autoridades de municípios da região, e muitos nem sabiam deste projeto”, concluiu Sandra.

(texto extraído do Jornal Diário dos Campos; qui, 20 de Maio de 2010)

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