segunda-feira, 21 de junho de 2010

Conceituação de Etnogeomorfologia

Texto de Simone Cardoso Ribeiro

A Geomorfologia é uma ciência geológico-geográfica que tem como preocupação central estudar o relevo terrestre, através da sua estrutura, seus processos, origem, história do seu desenvolvimento e dinâmica atual, além de tentar compreendê-lo em diferentes escalas temporais e espaciais (Penteado, 1983; Christofoletti, 1980; Hubp, 1989; Goudie, 1995; Casseti, 2001; Guerra e Guerra, 2001), a fim de melhor orientar o uso do solo pelas sociedades, uma vez que a superfície do relevo se comporta como o locus onde a população se fixa e desenvolve suas atividades.


Como a partir da ação intempérica física e química são produzidos sedimentos para a formação dos solos através da pedogênese, podemos dizer que a esculturação do relevo se dá a partir da remoção de partículas de solos por agentes de transporte – ou seja, pela erosão. E como essa remoção da superfície do solo é o primeiro passo para a esculturação do relevo, podemos afirmar que de acordo com o uso e o manejo a que os solos são submetidos, teremos uma maior ou menor modificação nas formas da paisagem.


Deste modo, a erosão é um processo natural na superfície terrestre, que pode ser acelerado ou retardado pela ação antrópica. Assim, a relação entre evolução das formas de relevo e uso e manejo destas pelas sociedades é intrínseca.


Partindo desta premissa, a Etnogeomorfologia pode ser definida como uma ciência mestiça, que estuda o conhecimento que uma comunidade tem acerca dos processos geomorfológicos, levando em consideração os saberes sobre a natureza e os valores da cultura e da tradição locais, sendo a base antropológica da utilização das formas de relevo por dada cultura.

Como os processos endógenos acontecem de forma lenta, em escala geológica (salvo eventos rápidos de tectonismo e vulcanismo), e assim, só podem ser compreendidos a partir de observações e medições detalhadas, muitas das quais em sub-superfície, são os processos exógenos, e em especial a erosão (compreendendo as etapas de destacamento do material, seu transporte e sua deposição) os que constituem a questão central da Etnogeomorfologia.


Os processos esculturadores do relevo dependem basicamente de quatro fatores: a mineralogia do substrato rochoso, a morfologia estrutural (previamente produzida pela forças endógenas), a ação do clima e a ação antrópica sobre o terreno. Como estes dois últimos fatores, visíveis à superfície e levados a termo na escala histórica de tempo (muitos deles ocorrendo de forma praticamente instantânea aos olhos do observador), as comunidades tradicionais vem convivendo e buscando compreendê-los ao longo de sua trajetória de uso e manejo das áreas, em especial aquelas destinadas ao cultivo e à criação.


Dessa forma, necessário se faz conhecimentos de várias naturezas, como o geomorfológico, o geográfico, o pedológico e etnopedológico, o ecológico e etnoecológico, e o antropológico, voltando-se a ciência etnogeomorfológica principalmente para a gestão e planejamento do uso do solo.

O texto foi retirado de artigo enviado à Revista Brasileira de Geomorfologia, intitulado “Etnogeomorfologia: a compreensão dos processos esculturadores do relevo pelas populações tradicionais e sua importância para o planejamento sustentável” e o conceito elaborado para a tese de doutoramento da autora, intitulada “Etnogeomorfologia do Cariri cearense: proposta metodológica para a classificação das paisagens da sub-bacia do rio Salgado/CE”, em andamento pela UFRJ, sob orientação dos professores Dra. Monica dos Santos Marçal (UFRJ) e Dr. Antonio Carlos de Barros Correa (UFPE).

(Meus agradecimentos pela contribuição! Simone Ribeiro é professora Adjunta da Universidade Regional do Cariri - URCA/ Doutoranda em Geografia - UFRJ)

5 comentários:

  1. Nossa, eu simplesmente adorei!!!
    Mto bom mesmo!
    Vou salvar aqui!

    beijãO

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  2. Na verdade, essa linha de pensamento, nada mais é (na minha opinião) o que a Geomorfologia enquanto ciência já deveria ser! Pensamento complexo, holístico, humano e físico em meio indissociável, não fragmentado, são premissas essenciais em todas as áreas!
    Todas ciência hoje precisa disso! Desse "ponto de mutação"

    Não é puxando o saco não, mas eu tenho orgulho de ter sido orientando da autora!! E isso é meio que "forever" rsrs

    Ótima abertura Shey, adorei. Bem interessante o espaço pra esses tipos de abordagens. E vamos praticar meu povo!
    : )

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