segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Construção do Desenvolvimento Sustentável Através da Geoconservação e dos Geoparques

(Geólogo M.Sc. Ricardo Fraga Pereira
Aluno de doutoramento da Universidade do Minho – Braga/PT)

Ao longo dos anos 70 do século XX, comescimento econômico, assistido principalmentenos países do “primeiro mundo”, que ocasionou a expansão dos núcleos urbanos e a deterioração da qualidade de vida nas grandes cidades, as questões ambientais começam a ganhar destaque nos debates políticos em nível internacional. Estes debates culminaram com o surgimento de um novo paradigma de desenvolvimento econômico, que passou a incorporar as questões sociais e ambientais nos indicadores de desenvolvimento.

Logo a seguir, na década de 80 do século XX, foi cunhado o conceito de desenvolvimento sustentável, definido como sendo um modelo de desenvolvimento através do qual a exploração dos recursos naturais, os avanços tecnológicos e a aplicação de investimentos devem atender as demandas da sociedade atual, sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Apesar de aliar as questões ambientais com as estratégias de desenvolvimento e gestão, este conceito tem um caráter essencialmente antropocêntrico, tratando dos elementos da natureza sob uma ótica essencialmente funcional, de estar a serviço da humanidade, negligenciando o valor intrínseco do patrimônio natural.

Estabelecer mecanismos que garantam a conquista do desenvolvimento sustentável em escala local, ou mesmo global, vem constituindo-se em um grande desafio mundial, já que boa parte das sociedades e governos concordam com a necessidade de se implementar este modelo de desenvolvimento, utilizando-se dos termos e conceitos vinculados com a ideia do desenvolvimento sustentável em seus discursos e modelos de gestão. Todavia, na maioria das vezes, práticas efetivas e sistemáticas de desenvolvimento sustentável vêm-se mostrando como uma tarefa muitas vezes inalcançável, ou mesmo como um conjunto de ações pontuais e isoladas.

Foi também no decorrer dos anos 80 do século XX, que a conservação dos elementos abióticos da natureza, denominada de geoconservação, começa a despontar no cenário mundial. Antes desta época, as iniciativas de geoconservação se davam de maneira esparsa ou isolada, e estavam praticamente restritas ao continente europeu. Entretanto, após a criação da Global Indicative List of Geological Sites - GILGES, no ano de 1989, pela International Union of Geological Sciences - IUGS, esta temática começa a ser sistematizada e difundida em nível global.

Mais tarde, no ano de 2004, foi criada a Rede Global de Geoparques, sob os auspícios da UNESCO. Esta rede, que já nasce sob o paradigma do desenvolvimento sustentável, surge com uma filosofia do compartilhamento de experiências entre seus membros e preconiza a união entre a geoconservação e o ecodesenvolvimento.

Mais do que estar focado apenas na proteção do patrimônio geológico, os geoparques têm como objetivo a criação de oportunidades para o uso sustentável deste patrimônio, através do geoturismo, fomentando a identidade cultural dos territórios onde se inserem e a valorização de produtos regionais. Desta forma, a implementação dos geoparques consiste em um exemplo prático de criação de alternativas sustentáveis de geração de renda, advindo de práticas geoconservacionistas.

Podemos então dizer que a geoconservação representa um novo modelo de conservação da natureza, baseado no uso sustentável de elementos do meio físico e na valorização das culturas locais, que vem sendo difundido em diversos locais do planeta Terra, como um instrumento de valorização e conservação do patrimônio geológico, através da filosofia dos geoparques, desempenhando assim um papel ativo na consolidação do desenvolvimento regional sustentável (Figura-01).




(Ricardo está desenvolvendo a tese Geoconservação e Desenvolvimento Sustentável na porção oeste da Chapada Diamantina - BA pela UMinho, em Braga, Portugal. Meus agradecimentos pela contribuição)

2 comentários:

  1. De facto até ha pouco tempo o enfoque era dado à biodiversidade. Hoje em dia, tende-se ir mais além, começar a dar importância o substrato, no fundo é o meio físico que condiciona a biologia. Deste modo a filosofia do Geoparque acaba por proteger a geodiversidade (ponto fulcral), a biodiversidade e a própria cultura, pois é voltado para as gentes do local/região (para que o geoparque tenha sucesso é essencial a participaçao activa dos locais).

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  2. Obrigada pelas considerações Natalia.

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