sábado, 17 de julho de 2010

Proposta de Quantificação da Geodiversidade da Chapada Diamantina - BA

(Texto de Ricardo Fraga
Aluno de doutoramento da Universidade do Minho – Braga/PT)




A descrição, representação e valoração de elementos da natureza é um tema recorrente na história da humanidade. De acordo com Humboldt (2007), esta temática esteve presente em todas as civilizações, sendo abordada de maneiras diferentes em cada uma delas. Numa análise sobre o papel e formas de representação da natureza para os povos da antiguidade clássica, este autor estabelece que para abarcar a natureza em toda a sua magnitude, temos de apresentá-la segundo dois pontos de vista: de uma forma objetiva, enquanto manifestação efetiva, e outra enquanto reflexo dos sentimentos humanos. Esta premissa de Humboldt (op cit) é um ponto de partida crucial para qualquer metodologia de quantificação dos elementos da natureza, uma vez que ela exprime a impossibilidade de estabelecer uma metodologia que consiga suplantar a subjetividade inerente ao sentimento humano e expressa a necessidade de se buscar uma representação objetiva do meio natural.

Reynard (2005) defende que os estudos relacionadas com a paisagem estão divididas em dois domínios. Por um lado, a abordagem naturalista, que considera as relações entre os vários componentes objetivos da paisagem (elementos bióticos e abióticos) e constituem as bases dos ecossistemas. Por outro lado, a abordagem humanística e cultural, que tenta compreender as representações subjetivas da paisagem pela humanidade (percepção humana).

Com a crescente importância da temática da geoconservação na segunda metade do século XX, incluindo a promoção do patrimônio geológico e da criação de geoparques, diversas foram as metodologias propostas para a quantificação dos elementos da geodiversidade (Rivas et al., 1997; Brilha, 2005; Bruschi & Cendrero, 2005; Coratza & Giusti, 2005; Serrano & Gonzalez-Trueba, 2005; Pralong, 2005; Pereira, 2006, Zouros, 2007 e García-Cortés & Urquí, 2009). Todavia, este conjunto de propostas foi elaborado, na sua quase totalidade, no âmbito de uma realidade européia e com uma abordagem local; duas das propostas, porém, têm uma aplicação mais universal (Brilha, 2005; García-Cortés & Urquí, 2009).

Considerando-se as condições intrínsecas e as especificidades dos geossítios inventariados na Chapada Diamantina, bem como o contexto sócio-económico e ambiental onde os mesmos estão inseridos, observa-se um grande contraste com a realidade européia, onde a avaliação, a conservação e a promoção dos geossítios se configuram de uma maneira muito diferente da realidade observada no Brasil em geral. Sendo assim, constatou-se a necessidade de elaboração de uma proposta específica e baseada no contexto e nas especificidades daquela região.

Foi estabelecido um conjunto de parâmetros a serem considerados, os quais foram pontuados de zero (ausência) até quatro (pontuação máxima) e agrupados em categorias de valores conforme descrito seguidamente:

Valor Intrínseco (Vi): nesta categoria foram reunidos quatro parâmetros associados diretamente aos aspectos inerentes ao geossítio, independentemente do seu eventual uso ou de uma avaliação funcional do local.
Nesta categoria avalia-se: 1) a raridade, 2) a integridade, 3) a vulnerabilidade associada aos processos naturais e 4) a variedade de elementos da geodiversidade que o local apresenta.

• Valor Científico (Vci): reúne um conjunto de quatro parâmetros, que permite a avaliação do potencial científico do geossítio, enumerados a seguir: 1) trabalhos de investigação realizados no local, 2) as suas potencialidades para ilustrar processos geológicos ou aspectos relevantes da geologia da área, 3) a sua relevância didática e 4) a variedade de elementos relacionados com outras temáticas de estudo associadas (biologia, história, arqueologia, etc.).

• Valor Turístico (Vtur): esta categoria reúne um conjunto de cinco parâmetros que permite uma avaliação da realidade atual referente à utilização turística do geossítio. Sendo assim, engloba as características vinculadas 1) ao seu aspecto estético, 2) à acessibilidade, 3) à presença de infra-estruturas, 4) à utilização do local no momento presente e, por último, 5) à eventual presença de medidas de controle do número de visitantes, o que permite uma avaliação futura da capacidade de carga do geossítio e da sua relevância, em termos de atrativo turístico.

• Valor de Uso/Gestão (Vug): integra um conjunto de sete parâmetros, ligados 1) à relevância cultural, 2) à relevância econômica vigente, 3) nível oficial de proteção, 4) possibilidade de uso econômico, 5) vulnerabilidade perante o uso antrópico, 6) população e 7) condições sócio-económicas dos núcleos urbanos mais próximos.
Este conjunto de critérios permite uma avaliação dos impactos sociais de utilização futura do geossítio, bem como da viabilidade de aplicação de investimentos para a sua valorização.

Após a quantificação de cada parâmetro, foram obtidas as médias aritméticas para cada categoria de valor, tendo-se obtido a pontuação final para o Valor de Uso Científico (VUC), o Valor de Uso Turístico (VUT) e o Ranking de Relevância (R) para o conjunto dos geossítios inventariados. Calculou-se também o Valor de Conservação (VC) que é indicativo da importância do geossítio em termos de conservação. Para o cálculo destes valores foram adotadas as seguintes ponderações:

• Valor de Uso Científico (VUC): avalia o potencial uso do geossítio para fins científicos e foi obtido a partir da média ponderada dos valores intrínseco (Vi) e científico (Vci).
• Valor de Uso Turístico (VUT): avalia o potencial uso turístico do geossítio e foi obtido a partir da média ponderada dos valores turístico (Vtur) e de uso/gestão (Vug).
• Valor de Conservação (VC): aponta o potencial uso do geossítio para fins de
conservação do patrimônio geológico e foi obtido a partir da média ponderada entre os valores intrínseco (Vi), científico (Vci) e de uso/gestão (Vug), onde foi atribuído um peso maior ao Vi.
• Relevância (R): a seleção dos geossítios inventariados teve como ponto de partida os locais consagrados pelo turismo na região, aos quais foram somados os pontos relacionados com os atributos científicos e didáticos, que são importantes para a compreensão da história geológica da Chapada Diamantina.


Sendo assim, a relevância dos geossítios foi obtida a partir dos índices Valor de Uso Científico (VUC) e Valor de Uso Turístico (VUT), divididos por 20, que representa o número total de parâmetros adotados na avaliação dos geossítios, sendo posteriormente multiplicados pelo número 100, com o intuito de normalizar estes valores.

No final, foi feita uma média ponderada, onde foi atribuído um peso maior ao VUC. Através do Ranking de Relevância (R) estabelece-se o nível de influência para os geossítios (local, regional, nacional ou internacional).

O cálculo de cada uma destas variáveis foi realizado conforme as seguintes equações:



VUC= (2*Vi + 3*Vci)/5
VUT= (3*Vtur + 2*Vug)/5
VC= (3*Vi + Vci + Vug)/5
R= {2*[(VUC/20)*100] + [(VUT/20)*100]}/3



Os resultados obtidos permitiram uma seriação dos geossítios para cada tipo de uso pretendido (científico, turístico e conservação), bem como uma definição da sua relevância (local, regional, nacional e internacional). Na definição da relevância dos geossítios (R), foram estabelecidos os seguintes critérios:

• Geossítios de relevância local: R =<> valor médio de R para o conjunto de geossítios avaliados;
• Geossítios de relevância internacional: R > valor médio de R e, simultaneamente, os parâmetros A-02 e A-03 >= 3 e os parâmetros B-01, B-02, C-02 e C-03 >= 2.

Ressalta-se que, à exceção do parâmetro C-03 (Presença de infra-estrutura), este conjunto de parâmetros é utilizado na maioria das propostas de quantificação analisadas no âmbito deste trabalho, configurando-se como parâmetros de caráter universal, dotados de elevada importância no processo de avaliação dos geossítios.
(Este texto é um fragmento do artigo de Ricardo Fraga, doutorando em Geologia na Universidade UMinho, em Portugal. Ele está desenvolvendo sua tese intitulada Geoconservação e Desenvolvimento Sustentável na porção oeste da Chapada Diamantina - BA pela UMinho, em Braga, Portugal. Este artigo pode ser encontrado no seguinte site < http://metododirecto.pt/CNG2010/index.php/vol/issue/view/19 > Um belo trabalho, vale a pena conferir)

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