sábado, 5 de fevereiro de 2011

Atividades "Ecológicas" Podem ter Colaborado para a Tragédia de Nova Friburgo

Olá caros leitores,

trago para o blog um trecho de uma breve discussão que ocorreu no grupo Geoturismo_brasil acerca das trilhas, para prática de esportes e turismo ecológico, que existiam no Morro da Cruz, em Nova Friburgo, e que podem ser apontadas como mais um fator responsável pela tragédia que ocorreu no início deste ano.

As atividades esportivas e turísticas ditas ecológicas como o Trekking, moutain bike, caminhadas, acampamentos, motocross, escaladas, rapel, cavalgadas, etc... podem ter contribuido para a desestabilização dos taludes, nessas chuvas fortes caídas em Nova Friburgo.

Numa tragédia semelhante, no ano passado houve um significativo deslizamento de encostas em Angra dos Reis, soterrando casas e inclusive uma pousada (Sankay), onde a prática de esportes ecológicos (caminhadas por trilhas) era um de seus atrativos.

Vários hoteis e pousadas em Nova Friburgo que tiveram suas instalações afetadas por deslizamentos de terra, por coincidência ofereciam, em seus atrativos, atividades ecológicas/esportivas como caminhadas por trilhas, etc...

No morro da cruz, no alto do teleférico, pode-se perceber claramente a presença de trilhas formadas por atividades ditas ecológicas e que provavelmente colaboraram para os deslizamentos ocorridos ali, tanto nas vertentes voltadas para o bairro de Granja Spinelli, na altura do Hotel Olifas, como para os bairros do centro da cidade e principalmente na vertente que tende para o bairro da Vila Amélia, onde ocorreu grandes prejuizos.


Imagem do Morro da Cruz onde podem ser vistas as trilhas destinadas à prática de esporte e turismo ecológico
https://picasaweb.google.com/ibamanovafriburgo/TragediaEmNovaFriburgo#5569045373536183010

Certamente essas trilhas propiciam a penetração das águas das chuvas no solo fazendo com que sejam mais rapidamente saturados e dessa forma viabilizando os deslizamentos de terras. Obviamente que estamos falando de agentes que colaboram, de alguma forma, para os processos de deslizamento de encostas. E essas atividades ditas ecológicas podem ser um desses agentes. Acho que vale uma reflexão, pelo menos.

O texto foi postado por David Amorim e é de autoria de Zurita. Em seguida, o professor Múcio do Amaral Figueiredo fez algumas importantes considerações.

Existe uma linha de pesquisa científica, denominada "Ecologia da Recreação" (Recreation Ecology), bastante desenvolvida nos países europeus, EUA, Austrália, entre outros, mas, ainda pouco explorada no Brasil.

O planejamento de trilhas para fins recreacionais, esportivos e ecoturísticos é coisa séria e relevante nos países citados (basta ver a extensa literatura técnico-científica existente sobre o tema), mas ainda considerado pela própria comunidade científica nacional, pesquisa de segunda categoria.

A literatura técnica sobre o tema mostra claramente que as trilhas, principalmente as muito utilizadas, devem ser criteriosamente planejadas, monitoradas e conservadas, para que não sejam catalisadoras de processos que resultem em degradação ambiental (erosão, movimentos de massa, introdução de espécies exóticas, etc.).

Houve um único congresso nacional voltado especificamente para o planejamento e manejo de trilhas (I Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas - I CNPMT), realizado na raça pelo Depto. de Geografia da UERJ, em 2006. Foi um sucesso, com mais de 500 participantes de todo o Brasil. No entanto, não houve continuidade e outros ainda não ocorreram.

Sem sombra de dúvidas que a rede de trilhas da região de Nova Friburgo, provavelmente mal planejadas, mal monitoradas e mal gerenciadas, pode, sim, ter atuado como catalisadora do referido desastre ambiental.

O problema maior é a crônica desconexão existente entre a universidade, a iniciativa privada e o Estado. O ecoturismo no Brasil ainda carece de parâmetros científicos que sustentem o planejamento das intervenções realizadas nos ambiente naturais. Há uma visão ainda muito voltada para o planejamento econômico, no sentido de proporcionar rápido retorno financeiro e lucros aos empresários do setor. O Estado, vai na onda e alimenta essa sanha ecolucrativa. A tendência é que essa situação (papel das trilhas em ambientes naturais) se agrave, pois, cada vez mais, todo o conjunto montanhoso das Serras do Mar e Mantiqueira, que se estende desde o ES, até PR, passando por MG, RJ e SP, seja cada vez mais um atrativo ecoturístico, recreacional e de esportes de aventura, pois está situado próximo a regiões de grande concentração demográfica com enorme potencial para consumir esse tipo de serviço.

É importante elegermos e delimitarmos as zonas de interesse geo-ecoturístico? Sim! Mas também é importante utilizarmos as ferramentas e métodos da Ecologia da Recreação para planejarmos melhor os acessos (caminhos e trilhas) aos atrativos naturais, sob pena de estarmos negligenciando o papel dos fatores citados como catalisadores/intensificadores da degração ambiental e eventuais riscos geológicos.

Conheça também o site: www.infotrilhas.com e saiba mais sobre o assunto.




Um comentário:

  1. https://picasaweb.google.com/ibamanovafriburgo/TragediaEmNovaFriburgo#5577569275781504258

    Só um olhar ingênuo acha que a Mata era intocada antes dos deslizamentos.

    Mauro Zurita - Geógrafo/UERJ-1987
    Especializado em Gestão e Manejo de Sistemas Florestais.UFLA-2002

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