terça-feira, 26 de março de 2013

História Geológica no Lixão?

A falta de legislação específica, que proteja sua geodiversidade e dê suporte ao geoturismo, pode provocar uma tragédia em registros raros no País. Segundo especialistas, sítios de mais de 600 milhões de anos estão abandonados no Brasil.   

A edição 48 da revista Conhecimento Prático Geografia trouxe uma excelente reportagem sobre as ameaças sofridas pelos geossítios. Vale muito a pena conferir!



Diversos eventos geológicos ocorreram ao longo da história do planeta. Ocorrências que provocaram alterações nas condições do meio ambiente e levaram à extinção diversas espécies animais e vegetais. Essas mudanças foram cruciais para a evolução dos seres vivos na Terra e para a geodiversidade. Com a evolução da civilização, ficou bem nítida a sua dependência dos recursos geológicos. Por consequência, as diversas etapas de desenvolvimento tecnológico estão ligadas ao uso ininterrupto de materiais geológicos: Idades da Pedra, do Cobre, do Bronze e do Ferro. Nos tempos modernos, a industrialização foi “refém” das reservas de carvão que alimentaram as máquinas a vapor e transformaram a sociedade.

Durante o século passado, a dependência por combustíveis fósseis, derivados do petróleo, só aumentou. Atualmente, considera-se que vivemos na Idade do Silício, elemento químico utilizado em dispositivos eletrônicos e encontrado em grande parte das rochas da crusta terrestre. Diante disso, o desafio da humanidade é a conservação dos solos e a gestão dos materiais geológicos que permitam um desenvolvimento tecnológico equilibrado.

Para a manutenção desses registros históricos, existe a possibilidade da criação de geoparques e geossítios, sendo o primeiro um território com uma gestão baseada na existência de um patrimônio geológico de exceção (único), que engloba iniciativas para a melhoria das condições de vida dos seus habitantes de maneira sustentável. Localizados, normalmente, em zonas rurais, os geoparques baseiam parte da sua estratégia de gestão no geoturismo e na promoção dos valores culturais locais. Já o segundo ocorre quando existe um ou mais elementos da geodiversidade, é delimitado geograficamente, e tem valor singular no universo científico, pedagógico, cultural e turístico.

Esses espaços são importantes, porque neles os geólogos estudam minerais, fósseis, rochas e os processos da dinâmica terrestre. Para isso, existe a necessidade de que essas áreas sejam protegidas, de modo a garantir que as futuras gerações de cientistas possam continuar a investigar, usando técnicas e métodos cada vez mais sofisticados. Contudo, considerados registros raros por especialistas, muitos sítios geológicos brasileiros não têm recebido a devida atenção dos entes federativos, seja dos Estados, seja dos municípios. Esses espaços, como já foi mencionado, contam a história de uma região e podem levar cientistas a estudos reveladores sobre o planeta. Além disso, esses lugares poderiam ser explorados através de uma nova tendência mundial, a do geoturismo. Por enquanto, a “briga” é para mantê-los preservados. “Uma obra de arte, quando está deteriorada, pode ser restaurada e recolocada num museu, mas um monumento geológico é impossível de ser restaurado”, explica o geólogo e historiador, membro do Conselho de Monumentos Geológicos, Virginio Mantesso.

A estimativa é de que, no Brasil, existam 200geossítios classificados, número baixo, segundo especialistas, se comparado ao tamanho do País e quando observados os 3 mil pontos classificados na Inglaterra. Exemplo de abandono é o sítio geológico em um bairro de Pirapora do Bom Jesus (SP). Era para ser uma praça, com informações sobre a importância do local e apta a receber visitas de estudantes e interessados em saber a história da Terra; contudo, o local precisa da atuação permanente de professores e alunos dedicados à geociência, para evitar que vire um lixão. “Estamos, sem sucesso, há 15 anos em contato com sucessivas gestões da prefeitura de Pirapora, mas é muito difícil”, explica o professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Boggiani. “Compramos pedra, areia e cimento e, um dia, fomos até lá e colocamos uma placa no local, distribuímos panfletos para a população, mostrando que ali era um local importante”, lembra.

O tema foi amplamente discutido no 46º Congresso Brasileiro de Geologia, que aconteceu na cidade de Santos (SP), entre os meses de A estimativa é de que, no Brasil, existam 200 geossítios classificados, setembro e outubro de 2012, e tratou sobre geossítios, geodiversidade, geoconservação, geoparques e geoturismo. Segundo as discussões, a situação mais grave é a da chamada Cava Histórica do Jaraguá, nos bairros de Jardim Britânia e Morro Doce, em São Paulo (SP), onde aconteceram as primeiras explorações de ouro do Brasil no século 16, que sofre com o mesmo problema registrado em Pirapora do Bom Jesus.



GEOTURISMO 

Este cenário de abandono dificulta a prática do geoturismo no País, termo que passou a ser divulgado na Europa em 1995, enquanto, no Brasil, passou a ser utilizado somente no início dos anos 2000. Esse segmento do turismo tem como atrativo a geodiversidade. O Brasil possui inúmeras características geológicas distintas, que podem ser utilizadas com objetivos turísticos, mas, para ter êxito, é necessário o desenvolvimento de políticas públicas no setor.



Para o geólogo e doutor em Geodinâmica e Geofísica e professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande no Norte (UFRGN), Marcos Antonio Leite Nascimento, autor do artigo “Geoturismo no Brasil: realidades e desafios”, uma das primeiras providências para o desenvolvimento dessa vertente do turismo no Brasil é a catalogação de aspectos geológicos que sejam, ou possam vir a ser, atrações turísticas. “Essa tarefa, por si só, num país com as nossas dimensões, é muito trabalhosa”, analisa. Ele cita exemplos de locais de interesse geoturístico e que já são, mesmo sem a consciência pública disso, atrações geoturísticas, como: Cataratas de Iguaçu (PR); Pão de Açúcar (RJ); Gruta de Ubajara (CE); Serra da Capivara (PI); e Chapada Diamantina (BA). De acordo com o geólogo, eventos científicos abordando o tema já são realidade desde 2004. Como exemplos, ele cita o Congresso Brasileiro de Geologia, que vem realizando simpósios específicos, tais como “Desenvolvimento Sustentável, Geologia e Turismo” e “Monumentos Geológicos” (XLII CBGeo, em Araxá); “Geoconservação e Geoturismo: uma nova perspectiva para o patrimônio natural” (XLIII CBGeo, em Aracaju); e “Monumentos Geológicos, Geoconservação e Geoturismo/Geoparks” (neste XLIV CBGeo, em Curitiba). “Sem falar que, nos simpósios regionais de geologia, sempre há uma sessão temática abordando o assunto”, lembra Nascimento, que observa a existência de um movimento bem estabelecido de atividades de pesquisas e divulgação do geoturismo no Brasil. “Entretanto, infelizmente, a sociedade brasileira ainda é pouco sensível à importância do patrimônio geológico e os próprios geocientistas começaram a despertar para o valor patrimonial da geologia há pouco tempo”, lamenta.



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